quinta-feira, 2 de outubro de 2008

A Outra Morte De Isabella

Navegando pela internet, ele vira coisas estranhas, como a “sala do incesto”. Procurando mais, descobrira bizarrices criminosas de pedofilia, que o deixavam indignado. O homem foi apelidado X-9, gíria policial para informante. X-9 usou o laptop do delegado Domingues para demonstrar como um grupo de pessoas agenciava crianças.

Começava numa sala de bate-papo, ou chat. O informante criou um nome para uma policial entrar na sala de conversação, “Mamãe Quer Kids”. Teve grande correspondência de pedófilos. Logo se descobriu que um dos mais ativos do grupo assinava “Tio Ama Sobrinho” ou “Família Feliz”.

Foi então que Domingues obteve autorização da Justiça para uma escuta telefônica. Com isso, chegou ao nome de “Família Feliz”. “Era Márcio Aurélio Toledo, um pai-de-santo que se valia de sua condição para atrair ‘filhos’ crianças”, diz ele. Segundo Domingues, Márcio tinha como interlocutor freqüente um certo Fábio.

Os dois haviam se tornado íntimos. No dia
29 de maio, Fábio estava agitado. Às 14 horas, começou a telefonar para o pai-de-santo, que lhe prometera uma menina de 9 anos.
Uma das frases captadas na escuta:
“Cadê a menina? Eu quero ela”.
Sem saber do grampo, Fábio deu sua localização a Márcio.

Os policiais viram o suspeito num telefone público. “Passei a meio metro dele e guardei seu rosto”, diz o investigador Geraldo Buscariolli Júnior. Ao ver Fábio entrando em seu carro, anotaram a placa. Às
19h40, depois de mais de cinco horas e meia de ansiedade e telefonemas, Fábio desistiu.

A placa do carro era de Penápolis, cidade de
55 mil habitantes, a 500 quilômetros de São Paulo. O delegado local, Mauro Gabriel, recebeu de seu colega Domingues um pedido para que a investigasse. Foi assim que a polícia descobriu quem era Fábio: o tenente da PM Fernando Neves Braz.

A Outra Morte De Isabella

Ele nasceu em Penápolis, onde moram seus pais e seus sogros. Os computadores que ele usava ao visitá-los foram apreendidos. No dia 30 de maio, o delegado Domingues foi ao quartel do 5º Batalhão Policial, na zona norte, onde Braz trabalhava. “Às minhas perguntas, ele dava uma mesma resposta, ‘não me recordo’”, diz Domingues.

“Parecia sereno, mas tinha o semblante preocupado.” A Justiça concedera a ele uma ordem de busca e apreensão. Com ela, Domingues e oficiais do Serviço Reservado e da Corregedoria da PM foram ao apartamento de Braz. Ele fora desarmado, e os oficiais o escoltavam.

À porta do apartamento, Braz fez um pedido: queria entrar sozinho, para prevenir sua mulher. “Eu disse a ele: ‘Fique no campo de visão’. Vi a mulher na sala, falando ao telefone, mas ele passou direto por ela. Comecei a chamar: ‘Tenente, volte aqui’.

Corri atrás dele e, no quarto, encontrei-o mexendo em um armário. Eu disse: ‘Volte para a sala’. Ele se virou, com uma arma em punho. Aí os oficiais entraram. Ele passou por mim e correu para o banheiro. Não deu tempo para nada. Fechou a porta e ouvimos o tiro”, afirma Domingues.

A bala atravessou a porta e caiu aos pés dos policiais. “Não sabíamos se ele havia se suicidado ou estava atirando contra nós.” Era suicídio. Em Penápolis, a família de Braz levava uma vida tranqüila. O pai, Tarcísio, se aposentara da Prefeitura. Braz ligava para a mãe, Helena, dia sim, dia não. Nos fins de semana, quando podia, os visitava. Ficava hospedado na casa da sogra, mas toda manhã passava na padaria, comprava pão e ia tomar café com os pais.

A Outra Morte De Isabella

Os Acusados Imagem da TV mostra o tenente Braz com Alexandre Nardoni (acima).
Márcio, o pai-de-santo (à esq.), nega pedofilia


Na cidade, as pessoas gostavam muito dele. Um amigo, também oficial da PM, chegou a dizer que, de tão correto, chegava a ser chato. Na adolescência, ganhou medalhas disputando corridas em torneios da região. Em 1994, já sargento do Exército, foi transferido para Porto Murtinho, Mato Grosso do Sul, na fronteira com o Paraguai.

Lá, afirmava ter tido uma filha, hoje com 11 anos. Mesmo sem ter certeza de que era o pai, pagava sua pensão. A irmã mais velha de Braz, Flávia, conta que seus pais foram a Porto Murtinho, recentemente, para se submeter a exame de DNA. “Se for mesmo filha do Fernando, meus pais querem legalizar a situação”, diz ela.

Braz queria ser oficial da Polícia Militar. Os pais o ajudaram a pagar um curso preparatório para a Academia do Barro Branco, em São Paulo. Fez a academia e saiu como tenente. Assumiu o posto em Penápolis. Há quatro anos, casou-se com Juliana, uma moça da cidade.

“O casamento foi muito bonito”, diz Flávia. Um acontecimento de gala. “Vinte e cinco oficiais fardados vieram para a cerimônia". Quatro meses antes do suicídio, Braz foi transferido para a PM de São Paulo. Morou algumas semanas sozinho, para deixar em ordem o apartamento que comprara. Só depois Juliana se mudou.

Tudo estava perfeito – ou pelo menos parecia. No dia
30 de maio, a tranqüila vida da família Braz, de Penápolis, começou a entrar em colapso logo cedo – às 8
horas da manhã. Um policial procurou Tarcísio, o pai do tenente, para apreender o computador da casa. Não ofereceu detalhes.

Disse apenas que Fernando estava sob investigação. Às
10h30
, uma ligação da delegacia: Fernando se matara. “Foi um choque”, diz a irmã Flávia. “Achamos que o Fernando errou, devia ter tido a coragem de enfrentar os fatos. Mas entendemos seu gesto".

O suicídio teve repercussão imediata. Tratava-se do oficial que atendera ao caso Isabella. A defesa de Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá sustenta que ela foi morta por alguém que entrou no apartamento onde o casal morava e cometeu o crime. Um policial pedófilo poderia ser esse “alguém”? O próprio tenente Braz comandou as buscas no prédio e nas redondezas, à procura de um suspeito – e não encontrou nenhum.

A Outra Morte De Isabella

Se provado o envolvimento do tenente com pedofilia levaria a sua expulsão da PM e a até seis anos de prisão. O advogado dos acusados, Marco Pólo Levorin, não levanta suspeitas contra Braz.

Diz apenas que a presença de um pedófilo, na cena dos fatos, ter passado despercebida da polícia “é uma prova cabal de que as investigações foram superficiais”. A delegada que cuidou do caso, Renata Pontes, mostra-se despreocupada com qualquer outra hipótese que não aponte para Alexandre e Anna Carolina.

“Temos provas concretas contra o casal melhor, que testemunho ocular”, afirma. Renata diz que mandou um ofício diretamente ao comando da PM, pedindo esclarecimentos sobre o número de policiais que atenderam ao caso, que horas chegaram, quando se foram.

“Com isso, tive a informação de que, no momento da queda da Isabella, o tenente Braz estava com sua equipe na Avenida Júlio Buono (nas proximidades). Quando chegaram ao Edifício London, já havia ali dois outros policiais militares.” Márcio, o pai-de-santo, foi preso em sua casa.

O delegado Domingues diz que as escutas haviam revelado que uma criança seria entregue a outro cliente. “Não podíamos esperar que uma criança fosse submetida a um pedófilo”, afirma ele. Com medo que isso acontecesse, entraram na casa e prenderam os dois.

A Outra Morte De Isabella

Domingues diz ter comprovado que Braz estivera com um menino de 8 anos no quarto de Márcio. Tanto o menino quanto a menina que Domingues afirma terem sido desejados por Braz aparecem numa foto com Márcio. “As duas crianças foram ouvidas por psicólogas especializadas e contaram os abusos sofridos”, diz Domingues. Na 77ª Delegacia, de Santa Cecília, no centro da cidade, Márcio negou que aliciasse crianças.

A Polícia Militar investiga um novo caso de pedofilia envolvendo um de seus policiais. Ele pertence ao
5º
Batalhão – o mesmo que o tenente Fernando Neves Braz integrava. A PM não fala mais sobre o caso de Braz. Sobre o do soldado, diz apenas: “O soldado PM (...) é investigado por denúncia de abuso sexual contra crianças e adolescente. Não há, até o momento, nenhuma relação com o caso do tenente Neves”.

Se estivesse vivo e se fosse confirmado seu envolvimento com a pedofilia, Braz seria expulso da Polícia Militar e processado. Estaria sujeito a cumprir pena de dois a seis anos de prisão. Na PM, nenhum dos
3º homens sob seu comando suspeitava de Braz. “Ele parecia uma pessoa íntegra”, diz uma vizinha do prédio onde ele e a mulher, moravam. A mulher, Juliana, se recusa a falar sobre o assunto.


http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,ERT13426-15228-13426-3934,00.html

A Pedofilia Vista Aqui

Todos sabemos, mais ou menos, das notícias sobre as redes internacionais de pedofilia, tráfico de menores e seus correlatos. Não tenho acompanhado de perto os trabalhos da CPI da Pedofilia aí, mas, freqüentemente, leio notícias nos jornais daqui a respeito de algum novo criminoso descoberto, etc.

Outro dia, li o artigo do Senador Cristóvam Buarque para este blog. Mas a verdade é que não há horas suficientes no dia para viver várias vidas, ler tantas notícias, estar a par de tantos acontecimentos em lugares diferentes. E a verdade é que, até este ponto da minha vida, não havia querido saber muito a respeito da pedofilia, cultivando uma cuidadosa distância do tema.

Mas, esta semana, uma notícia que li terminou por me fazer mergulhar no assunto e procurar saber mais. E, na minha procura, acabei topando com textos chocantes e outros interessantíssimos. Do alto da minha ignorância, pensei que fosse mais difícil encontrar leituras sobre o assunto na internet.

Qual nada! Para minha surpresa, descobri que, aqui na Suécia, tem até uma página que se dedica a discutir o assunto. E que há uma similar na Noruega. Primeiro, pensei tratar-se de uma página clandestina, dessas que tendem a desaparecer quando denunciadas.

Depois, descobri que se trata de uma página dedicada a colocar holofotes sobre a pedofilia, promover um debate amplo e, inclusive, hospedar depoimentos de pedófilos que queiram contar sua experiência pessoal! Além disso, traz artigos científicos sobre o tema, fatos e resultados de pesquisas, além de uma longa lista de referências bibliográficas para os interessados.

Ainda sem entender muito bem, continuei a pesquisa. A página esclarece que não acolhe pornografia infantil nem qualquer tipo de matéria ilegal. Tampouco tem o intuito de incentivar comportamentos criminosos. Dedica-se a discutir a predisposição de algumas pessoas (segundo a página, entre um e cinco por cento da população) que têm sua “orientação sexual dirigida a crianças”.

Só então é que comecei a entender. Ali, a pedofilia é definida como “uma orientação sexual que ainda não goza de aceitação social”. Isso quer dizer que, na moderna Suécia onde a liberdade de expressão individual está acima de outros valores também importantes, há pessoas dispostas a discutir a pedofilia, mais ou menos abertamente, como quem discute homossexualidade: uma orientação sexual que, mais cedo ou mais tarde, sairá da lista de distúrbios mentais catalogados pela Organização Mundial da Saúde.

Por que estou contando tudo isso? Não estou, e nisto vocês podem ter certeza, querendo fazer apologia da pedofilia. Muito pelo contrário. Confesso que fiquei chocada. “Orientação sexual dirigida a crianças” é um pouco suave demais para meu gosto. Mas minhas leituras me levaram a ver a complexidade do problema e as nuanças envolvidas.

Porque, certamente, os pedófilos não escolheram sua “orientação sexual”. E porque, pelo que entendi, é importante separar o problema psíquico do crime. Existem vários tipos de pedófilos. O tipo mais conhecido é o dos criminosos, que abusam sexualmente de crianças, suas próprias ou de outros. O castigo para essa modalidade de crime costuma ser severo, em todos os países do mundo.

Há pedófilos por “via internet”, que procuram e arquivam fotografias e vídeos de crianças ou contendo cenas de abusos sexuais contra menores. Há, ainda, pessoas que, em alguns casos, sem sequer sofrerem o problema psíquico, aproveitam-se da pedofilia para ganhar muito dinheiro com pornografia infantil.

Essas redes de difusão e estímulo ao crime devem ser exterminadas e os culpados, punidos. Mas existem pedófilos que não são criminosos, que jamais cometeram alguns abusos sexuais contra crianças, que jamais passaram da fantasia à ação. O que todos os pedófilos têm em comum?

O terrível medo de serem descobertos, de terem suas predisposições reveladas, de perderem sua rede de amigos, familiares e conhecidos. Quem quer conviver com eles? Quem lhes dá emprego? Qual é a saída para o sentimento de culpa e a vergonha?

A mera suspeita de pedofilia pode acabar com a vida de uma pessoa, muitas vezes em sentido estrito: não é raro que pedófilos que tiveram seu problema divulgado cometam suicídio. Só que um pedófilo, homem ou mulher (sim, há mulheres também), tem pai e mãe, irmãos, ás vezes esposa (ou marido) e filhos, família, amigos e parentes.

O que a gente não pode esquecer é que o pedófilo não escolheu ser pedófilo. E nem todos os pedófilos chegam a agir expressamente contra a lei. Estamos tratando de seres humanos vítimas de um problema, um distúrbio psíquico, uma doença, uma orientação sexual que é um tabu.

Mesmo aqueles que, por criminosos, são punidos com prisão; todos, sem exceção, precisam de tratamento e ajuda. Uns, para jamais passar às vias de fato. Outros, para assumir sua culpa, liberar suas pequenas vítimas da culpa que também carregam, e não continuar a fazer novas vítimas.

Leitora do blog, Sandra Paulsen, casada, mãe de dois filhos, é baiana de Itabuna. Fez mestrado em Economia na UnB. Morou em Santiago do Chile nos anos 90.
Vive a quase uma década em Estocolmo, onde concluiu doutorado em Economia Ambiental.

http://oglobo.globo.com/pais/noblat/


Torço pela inocência de Alexandre e de Anna.

Enviado por Ricardo Noblat

Em resposta a comentaristas, disse mais de uma vez e repito: contra evidências e até provas que surjam prefiro acreditar que Alexandre Nardoni e Anna Maria Jatobá não mataram Isabella, de cinco anos, esganada e depois atirada pela janela do edifício onde morava em São Paulo.

Sabe-se que pais espancam, violentam e até matam filhos. Mas jamais ouvi falar de um caso que reunisse ao mesmo tempo perversidade, frieza e cálculo. Matar um filho talvez seja o mais bárbaro dos crimes. Matá-lo ou imaginá-lo morto, e se livrar do corpo arremessando-o pela janela, seria o horror absoluto.

Na última quarta-feira, de São Paulo onde me encontrava, postei às 16h49 uma nota sob o título “Promotor diz que pai matou a filha”. A nota: “Foi o pai, Alexandre Nardoni, que jogou pela janela a filha Isabella Nardoni, de 5 anos. A informação foi dada esta tarde pelo promotor Francisco José Cembranelli em conversa reservada com um grupo de jornalistas. No passado, o promotor foi professor de Alexandre. Refere-se a ele como: "um vagabundo, que sempre viveu às custas do pai, um playboy”.

O promotor desmentiu a nota integralmente no programa de José Luiz Datena na Rede Bandeirantes de Televisão. Acusou-me de ter cometido com ele uma “cafajestice”. Em O Estado de São Paulo, referiu-se à nota como exemplo de “irresponsabilidade, de um mau caratismo sem tamanho”.

Parte dos 261 comentários postados à nota neste blog bateu dura em mim. Um leitor que se assina Jairo Lavia escreveu: “(…) um cara com quarenta anos de profissão nas costas, com credibilidade (?) me soltar uma nota dessas, leviana, sem poder comprovar o que assina…”

E concluiu:
- Sua credibilidade está cada vez mais no ralo.
Outro, que se assina Alexandre Ribeiro, escreveu: “Foi mal, hein Noblat!! Se não tem como provar não deveria publicar. Boato é boato, notícia é notícia. Por que você acha que o que a sua fonte disse tem mais credibilidade do que o que o promotor disse? Eu aposto que o promotor fala a verdade”.

Transcrevo o que o promotor Francisco Cembranelli disse ao Jornal da Rede Globo na última sexta-feira depois da libertação de Alexandre e de Anna por decisão da Justiça:


- Cembranelli conta que testemunhas descreveram, o que aconteceu no apartamento momentos antes do crime.
"Essas testemunhas indicaram que 10 minutos antes de tudo ocorrer deu-se uma ferrenha discussão entre o casal no interior do apartamento. Sendo reconhecida a voz da pessoa que discutia, comparada posteriormente com a voz da Anna Jatobá no momento em que gritava ao telefone celular
no térreo ao lado do corpo da menina...

Posso indicar claramente que nesse momento existem elementos bastante contundentes que abalam as versões trazidas pelo casal. Há informações preliminares do Instituto de Criminalística que nos permitem concluir, são informações categóricas, que permitem vincular o casal aos ferimentos sofridos por Isabella e ao que ocorreu na cena do crime”.

Limitei-me a publicar o que o promotor disse na quarta-feira em conversa reservada com um grupo de jornalistas - e que só dois dias depois se arriscaria a dizer publicamente. Continuo torcendo pela inocência de Alexandre e de Anna.

Faço votos para que o promotor não passe de um irresponsável capaz de cometer uma cafajestice.Quanto aos leitores que pesaram a mão contra mim, seus comentários ficarão para sempre nos arquivos do blog.


http://oglobo.globo.com/pais/noblat/post.asp?t=torco_pela_inocencia_de_alexandre_de_anna&cod_Post=97458&a=111